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Brasil

Por que Brasília é a capital do Brasil

A transferência levou 171 anos entre a primeira proposta e a inauguração. Este texto reconstrói o caminho, com as três capitais que o país já teve e as razões de cada mudança.

O Brasil é um dos poucos países grandes que trocaram de capital duas vezes. Salvador governou a colônia por 214 anos, o Rio de Janeiro assumiu por quase dois séculos e Brasília recebeu o posto em 1960, depois de um debate que começou ainda no século XVIII. Nenhuma dessas mudanças foi improvisada: todas responderam a um problema concreto de geografia política.

As três capitais do Brasil

Salvador foi fundada em 1549 justamente para ser a sede do governo-geral, quando a Coroa portuguesa decidiu centralizar a administração das capitanias. A escolha era lógica para a época: a Bahia ficava no meio do litoral colonizado e a travessia do Atlântico saía mais curta de lá.

O Rio de Janeiro assumiu em 1763 por causa do ouro. O eixo econômico havia se deslocado para Minas Gerais, e o porto do Rio era a saída natural dessa produção. A cidade se manteve no posto durante o período colonial, o Reino Unido a Portugal, o Império e a maior parte da República — quase 197 anos no total.

Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960. A escolha rompeu com o padrão anterior: pela primeira vez, a sede do governo saiu do litoral e foi para um sítio praticamente vazio, a mais de mil quilômetros do mar.

Uma ideia com quase dois séculos

A proposta de interiorizar a capital é bem mais antiga do que o projeto que a executou.

Em 1789, os participantes da Inconfidência Mineira discutiram transferir a sede do governo para São João del-Rei, no interior de Minas. O plano morreu com a repressão ao movimento, mas a ideia sobreviveu.

Em 1823, durante os trabalhos da primeira Assembleia Constituinte, José Bonifácio de Andrada e Silva apresentou um memorial defendendo a criação de uma capital no interior. O texto sugeria dois nomes possíveis para a cidade: Petrópole ou Brasília. É a primeira aparição documentada do nome que seria adotado 137 anos depois.

A Constituição que reservou o terreno

A ideia virou norma jurídica com a Constituição de 1891, a primeira da República. Ela determinou que uma área de 14.400 quilômetros quadrados no Planalto Central pertenceria à União e seria oportunamente demarcada para receber a futura capital.

A demarcação começou logo depois. Entre 1892 e 1894, a Missão Cruls, chefiada pelo astrônomo belga naturalizado brasileiro Luís Cruls, percorreu o planalto goiano levantando relevo, clima, água e vegetação. O retângulo delimitado por essa expedição ficou conhecido como Quadrilátero Cruls e é, em linhas gerais, a região onde Brasília seria construída.

Em 1922, no centenário da Independência, uma pedra fundamental foi assentada perto de Planaltina para marcar simbolicamente o compromisso. A Constituição de 1946 reafirmou a transferência e determinou a criação de comissões de estudo, que percorreram o planalto ao longo da década seguinte.

Como o sítio foi escolhido

A definição do local exato veio de um levantamento aerofotogramétrico contratado nos anos 1950, que comparou cinco áreas possíveis dentro do quadrilátero. O relatório apresentado em 1955 recomendou o chamado sítio Castanho, escolhido pela combinação de altitude, disponibilidade de água, clima e facilidade de construção.

Em 19 de setembro de 1956, a Lei nº 2.874 fechou a questão: fixou o nome da cidade como Brasília, definiu os limites do futuro Distrito Federal e criou a companhia urbanizadora encarregada de erguer tudo. A capital era a chamada meta-síntese do plano de governo de Juscelino Kubitschek, que prometia "cinquenta anos em cinco".

O plano de Lúcio Costa

Em 1957, um concurso nacional escolheu o plano urbanístico. Venceu a proposta de Lúcio Costa, apresentada em poucas folhas desenhadas à mão: dois eixos cruzados, um rodoviário e outro monumental, com as funções da cidade distribuídas em setores — moradia nas superquadras, comércio em faixas próprias, administração ao longo da Esplanada.

Oscar Niemeyer, que já chefiava o departamento de arquitetura da companhia responsável pela obra, projetou os edifícios que definiriam a imagem da cidade: o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, o Palácio da Alvorada, o Supremo Tribunal Federal e a Catedral. O paisagismo de boa parte dos espaços públicos ficou a cargo de Roberto Burle Marx.

O traçado nasceu de um gesto simples: dois eixos que se cruzam, marcando o lugar. Foi essa clareza que fez de Brasília o projeto de capital mais copiado do século XX.

A construção em cinco anos

A obra começou em 1956 num sítio sem estradas asfaltadas, sem ferrovia e sem cidade próxima de porte. Materiais chegavam de avião ou por estradas de terra abertas às pressas. A mão de obra veio principalmente do Nordeste e de Minas Gerais — os trabalhadores ficaram conhecidos como candangos, e os acampamentos onde se instalaram deram origem às primeiras cidades satélites.

Esse é um efeito colateral pouco lembrado: o Plano Piloto foi projetado para uma população limitada, e o crescimento real aconteceu fora dele. Hoje a maior parte dos moradores do Distrito Federal vive nas regiões administrativas que se formaram ao redor da área planejada.

A inauguração e o que veio depois

Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960. A data não foi escolhida por acaso: é o dia da execução de Tiradentes, figura ligada à Inconfidência Mineira, o movimento que havia proposto a interiorização da capital quase dois séculos antes.

Com a mudança, o antigo Distrito Federal no Rio de Janeiro foi transformado no estado da Guanabara, que existiu até 1975, quando se fundiu ao estado do Rio de Janeiro. E, em 1987, o conjunto urbanístico do Plano Piloto entrou na lista do Patrimônio Mundial — o primeiro sítio de arquitetura moderna a receber o reconhecimento.

Hoje Brasília é a capital federal por determinação constitucional expressa, está no Distrito Federal, que não é dividido em municípios, e é a terceira cidade mais populosa do país, embora não seja a maior — posto que pertence a São Paulo, como acontece na maioria dos países listados em capitais mais e menos populosas.

A cronologia em uma tabela

Cronologia das capitais do Brasil
AnoO que aconteceu
1549Salvador é fundada e se torna a sede do governo-geral do Brasil.
1763A capital da colônia é transferida para o Rio de Janeiro.
1789Os inconfidentes mineiros propõem levar a capital para São João del-Rei.
1823José Bonifácio sugere à Assembleia Constituinte uma capital no interior, com o nome de Brasília ou Petrópole.
1891A primeira Constituição republicana reserva uma área no Planalto Central para a futura capital.
1892A Missão Cruls parte para demarcar o quadrilátero previsto na Constituição.
1922Uma pedra fundamental é assentada em Planaltina, no centenário da Independência.
1946A nova Constituição reafirma a mudança e cria comissões de estudo.
1955O relatório de levantamento aéreo indica o sítio definitivo no Planalto Central.
1956A Lei nº 2.874 fixa o nome Brasília e cria a companhia responsável pela construção.
1957O plano urbanístico de Lúcio Costa vence o concurso nacional.
1960Brasília é inaugurada em 21 de abril e se torna a capital federal.
1987O conjunto urbanístico entra na lista do Patrimônio Mundial.

Perguntas frequentes

Qual foi a primeira capital do Brasil?

Salvador, fundada em 1549 como sede do governo-geral. Ela manteve o posto por 214 anos, até 1763.

Por quanto tempo o Rio de Janeiro foi a capital?

Cerca de 197 anos, de 1763 a 21 de abril de 1960, período que inclui a colônia, o Reino Unido a Portugal, o Império e boa parte da República.

Quem escolheu o nome Brasília?

O nome já circulava desde 1823, em proposta atribuída a José Bonifácio, e foi fixado oficialmente pela Lei nº 2.874, de 1956.

Quem projetou Brasília?

O plano urbanístico é de Lúcio Costa, vencedor do concurso de 1957. Os principais edifícios públicos são de Oscar Niemeyer.

Brasília é um município?

Não. Brasília é a capital federal e está no Distrito Federal, que pela Constituição não pode ser dividido em municípios.

Por que a capital foi levada para o interior?

Por três razões combinadas: ocupar o Planalto Central, integrar o território por estradas e afastar o governo da pressão política concentrada no litoral.

Se quiser testar o que ficou, o quiz de capitais da América do Sul cobre o continente inteiro, e o de casos especiais reúne os países vizinhos com mais de uma sede de governo.

Onde conferir

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